O ir e vir do povo de matriz africana

Hoje em dia o costume de buscar conhecimento em solo africano está cada vez mais presente entre as lideranças do Candomblé.

Mauro D’Ọ̀ṣọ́ọ̀si e Ọba Ooni Ifè

O tempo, a modernidade e o aporte financeiro fez com que as Ìyáloriṣás e os Bàbáloriṣás de nosso país fossem criando maneiras de melhorar o que nos foi deixado pelos nossos ancestrais. Dessa forma, africanos e brasileiros começaram a transitar em países opostos, procurando completar o quebra cabeça deixado pelos seus antepassados.

A questão nos faz refletir constantemente sobre o que fazemos no Candomblé de hoje e para falarmos com total embasamento do assunto, consultamos o Bàbálorìṣá Mauro de Ọ̀ṣọ́ọ̀si, descendente da família Ìyá Naso Oká, para falar sobre o tema em questão e o mesmo nos atendeu prontamente, contando um pouco de sua história e o que observou enquanto esteve por lá.

Morei na África durante 7 anos consecutivos, e neste período tive moradia fixa em 3 países (Nigéria, Angola e Moçambique), tendo porém visitado mais de 15 países diferentes. Esta experiência me fez identificar elementos do nosso Candomblé em vários locais e situações de lá, o que me fez ter uma compreensão muito positiva da preservação da essência da Religião que nos foi legada por nossos ancestrais. Quando tomamos em consideração que temos uma tradição baseada na oralidade e que nossos ancestrais vieram para o Brasil escravizados, mas que ainda assim e apesar de toda opressão foram capazes de manter a cultura e tradição milenar africana, não só no Brasil, como também em Cuba e no Haiti, esse feito torna-se ainda mais incrível! Falou Bàbá Mauro.

Quando perguntado sobre o fato dos Candomblecistas estarem indo à África para aprimorar seus conhecimentos, Mauro Nunes, filho da saudosa Ìyá Nitinha (em memória) e responsável pelo Ilê Axé Ofá, localizado em Miguel Couto/RJ, relatou algumas diferenças existentes entre os dois países.

Bàbáloriṣá Mauro Nunes

O culto ao Òrìṣà é africano, mas a organização do Candomblé é brasileira. Não existe Candomblé lá e isso independe de nação. Cada localidade cultua o seu Òrìṣà principal e mais um ou dois que tenham a ver com a ancestralidade. Conseguir colocar todos em uma nação única, seja ela qual for, é uma característica nossa e de nosso país. O que demonstra força, inteligência e poder por parte de nossos ancestrais. Acho que melhor que criticar é exaltar a sabedoria e conhecimento de nossos mais velhos. O maior exemplo do poder de união existente é o ṣire, que cantamos de Èṣù à Òṣàlá. Isso lá na África não existe. Colocar todos os Òrìṣàs do panteão africano no mesmo espaço foi um exercício hercúleo e de uma inteligência enorme. Merece o nosso máximo respeito. Explicou Mauro de Ọ̀ṣọ́ọ̀si.

Perguntado sobre a utilidade dos conhecimentos adquiridos lá, o Bàbálorìṣá exaltou seus mais velhos e usou um ditado popular para dar seu parecer.

Como diziam meus mais velhos, conhecimento não ocupa espaço e buscarmos alguns complementos de culto é essencial para o crescimento do Candomblé, desde que não venhamos desmerecer o que aqui se encontra e o conteúdo histórico religioso de sucesso absoluto do mesmo. Falou Mauro Nunes.

No fechamento da conversa, Bàbá Mauro aproveitou para deixar um importante recado ao povo de comunidades de matriz africana.

Bàbáloriṣá Mauro D’Ọ̀ṣọ́ọ̀si

Ao povo que está indo buscar mais conhecimento na África eu gostaria de dizer o seguinte, se é que me permitem. Vamos valorizar mais nossos ancestrais e reconhecer os ensinamentos que nos foram passados. Não há verdade absoluta. Existem rituais e cultos que podemos aprimorar através das informações adquiridas em solo africano, mas isso, de maneira nenhuma, pode desqualificar o que nossos mais velhos nos passaram. Devemos respeitar as lágrimas e suor derramados por nossos ancestrais, pois eles possuem grande valor histórico e religioso. O Àṣẹ que nos legaram é essencial para a nossa existência nos dias de hoje. A dúpẹ́! Finalizou o Bàbálorìṣá de 37 anos de iniciado. 

Dadas as explicações necessárias por quem residiu na localidade, agora os brasileiros interessados em colher informações diretamente desta fonte, saberão um pouco do que irão encontrar no solo da Mãe África.

Contato Bàbá Joaquim D’Ògún

(21) 96991-4004
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