Jornal Povo

Mocidade vai retratar o Planeta Fome de Elza Soares no abre-alas do seu desfile

Em 1953, Elza Soares tinha apenas 13 anos quando foi ao programa de calouros de Ary Barroso, na Rádio Tupi. A apresentação era uma atitude desesperada de ganhar dinheiro para comprar remédios para o filho, que estava doente. Pesando apenas 35 quilos, ela usava um vestido da mãe. No palco, o apresentador ironizou “De que planeta você veio?”. “Do planeta fome”, respondeu Elza. A icônica frase, que marcou a trajetória da cantora, será uma das histórias contadas pela Mocidade neste Carnaval.

No abre-alas, elementos do rádio e um Planeta Fome serão representados. A neta de Elza será destaque na alegoria para coroar o início do desfile ‘Elza Deusa Soares’, uma homenagem muito aguardada pela comunidade de Padre Miguel.

“Com o vozeirão que ela já tinha, Elza passou a ser a voz de todas as pessoas desse Planeta Fome, que não são vistas pela sociedade e precisam de representação. O passado dessa menina humilde invade o rádio naquele momento”, explica o carnavalesco Jack Vasconcelos, estreante na agremiação.

No segundo setor, será abordado o lado místico de Elza. Um tripé vai mesclar a imagem de São Jorge, com elementos budistas e também de orixás. “Ela sempre teve uma relação com o oculto, recebeu os recados antes que as coisas acontecessem”, conta Vasconcelos.

Estreante na Mocidade, Jack vestiu, de fato, a camisa da escola – Ricardo Cassiano/Agência O Dia

Em seguida, uma alegoria com uma TV passará imagens de quando Elza virou uma grande estrela. Fantasias relembrarão o momento em que a diva foi Madrinha da Seleção, em 1962.

Pioneira em puxar samba-enredo, Elza terá sua trajetória no Carnaval retratada no quarto setor, como o enredo ‘Bahia de todos os deuses’, do Salgueiro.

No quinto setor, a Mocidade levará para a Avenida os obstáculos que a artista enfrentou, como machismo, racismo, violência doméstica e perseguição na ditadura. “A alegoria será uma metáfora com o circo. Ela conta que a sua lembrança mais doída foi quando precisou cantar em um circo. Elza será representada por uma pantera negra, enfrentando as dificuldades nesse picadeiro”.

O desfile vai fechado com bandeiras defendidas pela cantora. “No fim, essa deusa que veio do Planeta Fome, oferece um grande banquete. Isso é simbólico, a fome vai além da comida em si. É fome de justiça, saúde, educação, respeito e igualdade”, destaca o carnavalesco. A alegoria na qual Elza vai desfilar ainda é mantida em segredo pela Verde e Branca.

Enredo sobre Elza foi decisivo para Jack aceitar convite

Responsável pelo vice-campeonato da Tuiuti em 2018 e por levar o ‘presidente vampiro’ para a Sapucaí, Jack Vasconcelos vestiu, de fato, a camisa da Mocidade.

“Muitas vezes me pego não lembrando que não estava aqui. Elza foi um dos fatores que me fez aceitar vir para a Mocidade. É um ano atípico como artista, em que me sinto ferramenta para que esse enredo aconteça. Todo mundo, inclusive eu, estava esperando por esse desfile”, pontua ele.

O profissional e a cantora se encontraram em duas ocasiões. “Fez todo sentido quando a vi na minha frente. É uma mulher que sempre defendeu o poder feminino, a representatividade da mulher negra, a cultura de periferia, a causa LGBT. São muitas Elzas que me sinto na obrigação de apresentar”.

Laíza brilhará na Comissão de Frente da Mocidade

Aos 34 anos, Laíza Bastos desfila pela Mocidade desde os sete. Este ano, a moradora do Engenho de Dentro assume a responsabilidade de, pela primeira vez, fazer parte da Comissão de Frente da escola. “É uma responsabilidade grande, por ser um quesito de importância. E Elza sempre fez parte da minha vida. Me lembro quando ouvi pela primeira vez um disco dela e me apaixonei. Fiz cover dela durante anos”, conta a beldade.

Laíza Bastos já morou na Rússia, Bolívia e Peru para ensinar samba – Ricardo Cassiano/Agência O Dia

Com 1,63 metros de altura e 68 quilos, Laíza já morou na Rússia, Bolívia e Peru só para ensinar samba. Viajou ainda para Finlândia, Suécia, Líbano e Argentino. “Os russos são dedicados. O que tem de russo que sabe sambar é impressionante”.

Formada em História da Arte na UERJ, cursa ainda sua segunda graduação em Segurança Pública na UFF. Além dos ensaios na Mocidade, ela dá aulas de samba para cerca de 500 pessoas e trabalha em uma ONG. “O samba é a dança mais democrática que existe. Se você samba bem ou mal, você se diverte”, afirma ela, que define a sensação de desfilar como “indescritível”.

Fonte: O Dia