A percepção do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que as empregadas domésticas estavam indo muito à Disneylândia não reflete a realidade dos 6,356 milhões de trabalhadores que exercem a atividade no país — a maioria (4,598 milhões) na informalidade. Na quarta-feira, Guedes, ao comentar a elevação da moeda americana, avaliou que “dólar alto é bom” e que “todo mundo estava indo para a Disney, inclusive empregada doméstica”, o que classificou como “uma festa danada”.
Em reação às declarações, o dólar voltou a subir ontem, mas encerrou o dia a R$ 4,333, um recuou de 0,38%, após intervenção do Banco Central (BC) no mercado. Para a presidente do Sindicato das Domésticas do Município do Rio, Maria Izabel Monteiro, de 53 anos, a opinião do ministro está em dissonância com o mercado de trabalho brasileiro:
—Eu gostaria muito de conhecer a Disney. Não conheço nem o Brasil. Não temos dinheiro para viajar. Foi uma declaração preconceituosa. Foi um deboche com uma categoria de trabalhadores que historicamente tem salários baixíssimos, com pouca escolaridade, e que luta há anos por seus direitos — ressaltou.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio de um empregado da categoria, com carteira assinada, é de R$ 1.269 mensais. A remuneração cai para R$ 755, no caso de trabalhadores não registrados. Em tempos de desemprego em alta, em um ano, 112 mil pessoas aderiram à atividade como forma de inserção no mercado de trabalho.
Há 38 anos trabalhando em casas de família, a doméstica Alice Muniz, de 51 anos, planejou por mais de um ano uma viagem com a família para Maranhão e Tocantins.
— A gente luta, trabalha, faz economia para conseguir levar o filho para passear nas férias. Este não é comportamento que se espera de um ministro. Por que eu não poderia viajar, se tivesse dinheiro para isso? — questionou Alice.
Doméstica e poetiza, Maria de Lourdes de Jesus, de 73 anos, dedicou seu tempo livre para escrever um poema em resposta ao ministro. A única viagem internacional que ela fez foi uma ida ao Paraguai, em 1978:
— Ele acha que é um desaforo alguma doméstica ir para o estrangeiro. Pela reação dele, deve incomodar muito quando um trabalhador consegue viajar.
Fonte: Jornal Extra