Motoristas de ônibus do Rio reclamam da falta de itens básicos de higiene no trabalho

A máscara que Ronaldo Martins, de 47 anos, acrescentou em seu uniforme de trabalho não é de super-herói, mas bem que poderia ser. Motorista da linha 954 (Taquara – Recreio), o rodoviário integra um grupo de profissionais que todos os dias saem de casa para trabalhar, em plena quarentena. Considerados como serviço essencial, eles são fundamentais para que o isolamento social funcione.

No caso dos rodoviários, muitas vezes as péssimas condições de trabalho, como a falta de banheiro com pia e água nos pontos finais, fazem com que uma simples limpeza nas mãos, recomendada pelas autoridades sanitárias para se proteger da Covid-19, seja um desafio diário. O manuseio de dinheiro e o contato direto com os passageiros expõem ainda mais motoristas e despachantes. Para amenizar os riscos, eles improvisam. A máscara de Ronaldo é uma das três feitas com tecido e elástico pela sua mulher como medida de precaução.

— A gente está levando menos passageiros, mas é um risco de qualquer forma — avalia o profissional, com 13 anos de experiência, que diz ter mais medo do coronavírus do que da violência urbana.

A preocupação com a contaminação é comum a outros rodoviários que se expõem ao risco diariamente, até mesmo para garantir que profissionais de outras áreas essenciais cumpram a sua missão. Se Ronaldo, que pelos seus cálculos, tem contato com pelo menos 180 passageiros transportados nas seis viagens diárias que faz, a situação da despachante Érica Nepomuceno, de 40 anos, que trabalha no terminal da Taquara, não é muito diferente.

A aglomeração de pessoas, principalmente, nos horários de pico, faz com que ela redobre os cuidados, mesmo num ambiente com condições de trabalho adversa. Érica e os colegas reclamam que o banheiro do terminal está interditado há mais de um ano. Para manter a higienização das mãos ela leva de casa álcool, água e sabão. Sensibilizados com a situação dos profissionais, alguns usuários dos ônibus contribuem com a doação desses itens.

— Trago tudo de casa. É preciso se cuidar. Nosso contato direto com o passageiro é menor, mas, por estarmos num terminal, os riscos são os mesmos. É muita gente circulando por aqui. Por isso, todo cuidado é pouco — reconhece a rodoviária, que se preocupa também com a possibilidade de levar o vírus para casa, já que mora com a mãe de 62 anos, considerada dentro do grupo de risco pela idade.

Paulo Sergio só consegue lavar as mãos no ponto final da linha 390 (Curicica - Candelária)
Paulo Sergio só consegue lavar as mãos no ponto final da linha 390 (Curicica – Candelária) Foto: Luiza Moraes / Luiza Moraes

A preocupação maior do rodoviário Paulo Sérgio Lopes, de 33 anos, há um ano na profissão, é levar o vírus para casa. O motorista da 390 (Curicica – Candelária) diz que a dificuldade de manter a higienização na rua faz com que tenha de contar com a sorte. No ponto final, no Recreio, para lavar as mãos, só recorrendo ao comércio local.

— As pessoas têm suas obrigações do dia a dia, ir ao médico, fazer compras e necessitam do transporte público. Não podemos parar — aponta Paulo.

Morador da Vila Kennedy, o motorista Henrique Celso de Andrade da 315 (Central – Recreio) só circula com as janelas do carro abertas, apesar de o veículo ter ar-condicionado. É uma precaução para garantir a saúde não só dos passageiros, mas também a sua.

— Quando a gente chega ao ponto final na Central, a primeira coisa que fazemos é lavar as mãos. Na rua só mesmo o álcool gel que salva — reconhece.

Despachante da empresa Redentor, Adilson Siqueira Costa, de 45 anos, que trabalha no Recreio, no ponto final das linhas 315 e Integrada 8 (Rio Sul – Recreio), estava de férias até o fim do mês passado. Os cuidados que já mantinha em casa levou para o trabalho. Ele carrega sempre álcool gel. Nos intervalos, procura lavar as mãos com sabão e água, que pega num posto de gasolina próximo.

— É preocupante. A gente trabalha com o público e pode levar a doença para casa. Para os motoristas, acho a situação pior. Eles manuseiam dinheiro, que pode ser uma fonte de contaminação. Nunca se sabe quem pegou antes — diz o rodoviário.

De acordo com Sebastião José, presidente do Sindicato dos Rodoviários do Rio, não entregar Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) aos motoristas de ônibus, demonstra uma total falta de sensibilidade das empresas em relação a saúde da categoria.

– É claro que diante da epidemia que assola a cidade, os EPIs são fundamentais aos profissionais. Mas também é importante lembrar que essas mesmas empresas não cumpriram o acordo firmado entre nós e o RioÔnibus, que garantiria um rodízio de prossionais. Isso sem falar nos salários, férias e 13° que continuam atrasados em quase todaa as empresas – disse.

Questionada, a Rio Ônibus se algum cuidado estava sendo tomado em relação à limpeza dos coletivos e à higienização dos funcionários. No entanto, a empresa não respondeu nossas perguntas.

Fonte: Jornal Extra

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