Guerra de facções pelo controle do tráfico na Praia do Recreio já teve oito assassinatos

Duas facções disputam à bala o controle do tráfico de drogas na Praia do Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio. A guerra entre as quadrilhas começou no ano passado e, até março passado, já contabilizava oito mortos, segundo levantamento feito pelo Serviço Reservado (P-2) do 31º BPM (Barra da Tijuca). Criminosos da Cidade de Deus, também na Zona Oeste, e do Morro dos Macacos, na Zona Norte, brigam pelo monopólio do comércio ilegal na areia e em quiosques.

Há pelo menos três anos, a facção que controla o tráfico do Morro dos Macacos também dominava, através de intermediários — os chamados “esticas” no jargão policial — a venda de drogas na região. Criminosos da Cidade de Deus, favela mais próxima da praia, tentam tomar os pontos de vendas de drogas.

O capítulo mais recente da disputa é a execução de um traficante que ia para a praia, dentro de um ônibus, no dia 29 de fevereiro, no Recreio. Na ocasião, um homem numa moto perseguiu o veículo, ordenou que o motorista parasse, entrou no coletivo — linha 315 (Central/Recreio) — e disparou várias vezes contra Uander Rodrigues da Silva, de 26 anos. A vítima, de acordo com o relatório do batalhão, “exercia liderança no tráfico de drogas” no local, e o crime teve “por motivação a disputa da venda de drogas na região do entorno da Praça Tim Maia, Posto 12”.

O ponto citado no documento é onde fica, atualmente, a base do Recreio Presente. Segundo o relatório da PM, “mesmo com a presença ostensiva dos policiais do Recreio Presente e do 31º BPM; as vendas não pararam”. A base do projeto foi instalada ali em dezembro do ano passado.

Uander já havia sido preso levando drogas para a praia numa tarde de sábado, em julho do ano passado, oito meses antes de ser assassinado. Na ocasião, o carro onde ele estava com outros três comparsas foi parado numa blitz. Os agentes encontraram 43 pinos de cocaína no veículo — no total, foram apreendidos 78 gramas da droga.

Uander, entretanto, não ficou preso: ele foi solto em audiência de custódia e respondia ao processo em liberdade quando foi assassinado. A Delegacia de Homicídios (DH) investiga o crime.

Drogas escondidas na lixeira

Uma investigação feita pela 20ª DP (Vila Isabel) ao longo de 2017 revela detalhes da atuação do tráfico na Praia do Recreio. Ao fim do inquérito, 21 traficantes do Morro dos Macacos foram denunciados pelo Ministério Público — entre eles, Leandro Nunes Botelho, o Scooby, chefe do tráfico da favela. A denúncia foi recebida pela Justiça em setembro do ano passado. Escutas que integram o processo mostram que a quadrilha tinha um gerente responsável pela arrecadação do dinheiro da venda de drogas na praia.

Leandro Nunes Botelho, o Scooby, chefe do tráfico do Morro dos Macacos, está foragido
Leandro Nunes Botelho, o Scooby, chefe do tráfico do Morro dos Macacos, está foragido

Jeferson da Silva Andrade, o Jefinho, é apontado como o responsável pelo recolhimento. Numa ligação interceptada pela polícia, Jefinho e um interlocutor conversam sobre uma carga de maconha que foi esquecida numa lixeira dentro de um quiosque. No início da ligação, Jefinho afirma que está “fechando o balanço” de venda de drogas do dia. Um comparsa afirma que esqueceu uma carga de maconha na praia.

Jefinho, que está na praia no momento da ligação, pergunta a localização exata da droga. “Tá dentro da lixeira, oito maconhas de R$ 10”, responde o homem do outro lado da linha. No final, Jefinho afirma que a carga foi encontrada: “A (lixeira) que fica grudada com o quiosque, tem um saco preto aqui, acharam já”.

Crime na areia

Só um dos três comparsas detidos com Uander Rodrigues da Silva, mais recente vítima na guerra pelo controle do tráfico na praia, permaneceu preso após a audiência de custódia. Na ocasião, a Justiça manteve Matheus Pereira preso porque ele já havia sido detido anteriormente com drogas na Praia do Recreio.

Em dezembro de 2018, Matheus foi preso por PMs com 12g de cocaína em sete tubos plásticos na Praia do Recreio. Os agentes que fizeram a prisão afirmaram à época, que Matheus “ia num arbusto buscar a droga e voltava para entregar àqueles que compravam”. Em depoimento, o preso afirmou que não era consumidor da droga. Segundo a decisão que manteve sua prisão, a declaração “reforça o convencimento de que a droga com ele apreendida se destinava ao tráfico”. Um mês depois, Matheus foi solto por decisão da 1ª Câmara Criminal.

Desde dezembro, um PM atuava na base do Recreio Presente coletando informações e monitorando as atividades dos traficantes que atuavam na Praia do Recreio. O trabalho, entretanto, foi interrompido em março porque, com a pandemia, o agente passou a trabalhar no policiamento ostensivo.

Fonte: Jornal Extra

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