A violenta Baixada Fluminense nos anos de Chumbo

Há quem se refira a Ditadura Militar como os anos mais seguros que o país já teve. Os saudosistas dos anos de chumbo que hoje vão às ruas vestidos de verde e amarelo exigindo intervenção militar, falam muito frases como: “Na época da ditadura eu podia andar na rua com segurança”, “meus avós contavam que viveram muito bem no período do regime militar” ou “no tempo da ditadura não teve um cidadão de bem morto, só comunista”. Entretanto, a realidade era outra. A periferia carioca foi duramente afetada pela violência no período do golpe militar.  Nessa época, a Baixada Fluminense foi palco de perseguições e diversas barbáries perpetradas principalmente pelos grupos de extermínio que eram apoiados pelos governos.  

Entretanto, vale ressaltar três situações que ocorreram nessa época e que mostram como a Baixada era tratada – e é até hoje -, como um território segregado quando o assunto é segurança pública. Nesse contexto, como o cidadão-pobre-de bem também era objeto da violência e impunidade.

O Bispo Diocesano Dom Adriano Hipólito, era sergipano que escolheu Nova Iguaçu como sua segunda casa. Na cidade ele foi o maior ativista católico contra a repressão e sofreu inúmeras vezes as consequências deste seu posicionamento. O religioso era protetor da população mais pobre e defensor dos direitos humanos mais básicos. Exatamente por conta de seus posicionamentos, Dom Adriano foi tido como comunista pelos militares, apesar de nunca se se posicionar ideologicamente, sendo humanista por princípio Cristão. Aliás, tal marca de “comunista”, ainda é algo muito comum atuamente: A filosofia do ‘Quem não está comigo está contra mim’. Por conta de seu posicionamento Dom Adriano sofreu calunias, ataques, ameaças e chegou até mesmo a ser sequestrado. Aconteceu em 1976, quando seis homens o renderam. Dom Adriano foi espancado, teve seu corpo pintado de vermelho e foi abandonado nu às margens de uma estrada em Jacarepaguá. Posteriormente, seu fusca foi roubado e explodido em frente à sede da CNBB no Rio. Também em represália a atuação da Igreja, em dezembro de 1979 uma bomba foi explodida no altar da catedral de Santo Antônio, em Nova Iguaçu. Na ocasião, parte da estrutura de natal foi destruída e um operário foi levemente ferido. Durante anos as igrejas da região sofreram com constantes pichações nos muros com frases como “aqui sede do PCB” e “o bispo é comunista”. Posteriormente, em 1994, Dom Adriano disse ao Jornal O Globo que os sequestradores haviam dito aquilo tinha sido “uma lição”. Os anos passaram e a perseguição a Dom Adriano só atenuou no final da ditadura, em 1985. Dom Adriano morreu em 1996 e os criminosos que o atacaram ficaram impunes.

Marli coragem

Uma mulher, negra e empregada doméstica chamada Marli Pereira Soares fez o que pode para lutar por justiça pelo assassinato de seu irmão Paulo, pela polícia militar, em outubro de 1979. Ela, que ficou conhecida como ‘Marli Coragem’, pois em plena ditadura milite foi até uma delegacia de Belford Roxo acompanhada de seu pai fazer a denúncia do assassinato. Marli, em plena ditadura militar, enfrentou a polícia que sequestrou e matou seu irmão. Cobrou justiça e no dia 12 de maio de 1980 os cinco assassinos de seu irmão tiveram prisão preventiva decretada. Mas, se tratando de pobre e preto, justiça é apenas uma utopia. Dos cinco condenados à prisão, apenas um foi preso e solto com quatro anos de pena.

Marli Coragem lutou por justiça pela morte de seu irmão-foto reprodução

O esquadrão da Morte: A ascensão dos “Xerifes da Baixada”

Promovidos pelo governo militares, os anos entre 1964 até o final da década de 1980 foram cenário das mortes causadas pelos grupos de extermínio que foram criados na região com apoio do governo militar.  Esses grupos eram como a milícia daquele tempo, formados em sua grande maioria (ou totalmente) por policiais. Alguns chefões de grupos de extermínio chegaram até mesmo ao poder público, se tornando vereadores, deputados e prefeitos. Um desses nomes é muito conhecido em Belford Roxo, curiosamente o município mais violento naquela época: Jorge Júlio da Costa dos Santos, ou simplesmente Joca, primeiro prefeito de Belford Roxo depois que o município foi emancipado de Nova Iguaçu. Ele era tido como o ‘xerife’ da área. Na épica Joca foi eleito com mais de 70 mil votos e até hoje a população de Belford Roxo o tem como um grande prefeito. Foi ele que fez o hospital que leva seu apelido e o tradicional pórtico na entrada da cidade na rodovia presidente Dutra. Joca morreu em 1995, assassinado quando ia se encontrar com o governador no Palácio Guanabara. Entre os anos de 1985 e até a metade dos anos 90, Belford Roxo era proporcionalmente em homicídios, a cidade mais violenta do mundo segundo a ONU.  

Impossível também não citar o  “mão branca” quando o assunto é grupo de extermínio na Baixada. O “Mão Branca” desencadeou série de assassinatos e tomou conta das manchetes dos principais jornais da época. O grupo ligava para as redações e eles mesmos forneciam o paradeiro dos novos corpos. Na verdade, o personagem era uma nuvem de fumaça para dificultar possíveis investigações e espalhar o medo na população.

Foto que faz alusão ao “Mão Branca”-foto reprodução

Outro grupo de extermínio que agia na Baixada nessa época o “Killing”, composto por policiais que ainda estavam na ativa, ex-policiais civis e militares. Apenas nos anos 1970, esse grupo teria matado aproximadamente quinhentas pessoas na Baixada Fluminense. Nesse período, os grupos de extermínio no Rio também passaram a serem chamados de “polícia mineira”.

O fato é que sempre caiu na conta de quem tem menos. Muitos que hoje pedem a volta de um regime militar alegando que a rua era mais segura sequer eram nascidos naquela época e apenas reproduzem esse discurso. A periferia não foi contemplada com essa tal “segurança” dita por essas pessoas. Pelo contrário. Foi quando surgiram os grupos de extermínio que literalmente mandavam na rua, matavam quem julgavam bandidos e também inocentes e ficavam impunes. Quero aqui usar as palavras do meu grande amigo Adriano Dias, da ONG ComCausa: “As periferias eram especialmente perigosas em todos os períodos ditatoriais. A associação da repressão política do governo com grupos de extermínio – que faziam o controle social nas comunidades -, somadas a falta instrumentos externos de controle das violências, criavam a situação para uma insegurança generalizada” – afirma Adriano Dias, fundador da ComCausa – “Os grupos de extermínio, pais-avós das atuais milícias-máfias, agiam livremente na política pública da matança. Os mais pobres periféricos eram levados para a famigerada ‘prisão para averiguação’ – instituto foi largamente utilizado pelo Estado na época da Ditadura -, e reapareciam em pilhas de cadáveres vítimas de personagens como ´mão branca´ sob acusação de que era ladrão. Muitos trabalhadores, estudantes, prioritariamente jovens e negros, eram as vítimas deste modus operante”.

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