Carlos Bolsonaro e Roberto Jefferson lideram debate no Twitter sobre projeto das fake news

A direita bolsonarista dominou o recente debate nas redes sociais sobre o projeto de Lei das Fake News, com destaque para a atuação de Carlos Bolsonaro (Republicanos), Roberto Jefferson (PTB) e Douglas Garcia (PSL), os dois últimos investigados no inquérito das fake news, em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF). O texto não encontrou um espaço de apoio significativo nas redes. A análise é de um um relatório produzido pela consultoria Arquimedes.

As recentes movimentações do texto — que agora encontra-se na Câmara dos Deputados e já foi aprovado pelo Senado — produziram 147 mil menções ao assunto no Twitter entre os dias 1º e 7 de julho. Por várias vezes, foi o mais comentado da rede social, indicando uma massificação da discussão, segundo especialistas ouvidos pelo Sonar.

O relatório da consultoria de análise política baseada em redes sociais aponta que a esquerda, por vezes, questionou o projeto, assim como especialistas, mas não conseguiram ter relevância no debate. Pedro Bruzzi, sócio da Arquimedes, aponta que esse movimento é sintomático, dado a maneira organizada da atuação bolsonarista nas redes.

— O que vimos foi que a direita bolsonarista realmente dominou a pauta e que não há nenhum grupo que se destaque na defesa do PL. Isso é muito sintomático. A esquerda por vezes questiona, assim como especialistas, mas sem alcance. Já os bolsonaristas dominam o campo pela forma coesa e organizada de atuação. Praticamente todos os influenciadores desse grupo postaram alguma coisa sobre o tema na última semana — destaca Bruzzi.

Especialistas apontam que é importante diferenciar os grupos de oposição ao projeto, bem como seus argumentos e motivações. Fernanda Campagnucci, diretora executiva da Open Knowledge Brasil, indica que o posicionamento contrário ao projeto vem de grupos políticos de espectros distintos e que, de um lado, há um movimento dos que reagem por se sentirem ameaçados por mais transparência no processo e, do outro, aqueles que enxergam um retrocesso nos direitos individuais.

— Existe um argumento sobre os direitos fundamentais, que aponta que é necessário ter muito cuidado nesse processo regulatório, e um grupo que pode estar defendendo a causa certa com as motivações erradas. É a pauta mais política, que se preocupa mais com a defesa pessoal do que com os direitos fundamentais. Se realmente houvesse uma preocupação com a liberdade de expressão, a gente não veria ataques à imprensa, por exemplo. É uma tentativa de se afastar de uma pauta que incomoda, já que há indícios de irregularidades no manejo das redes sociais. E isso nada tem a ver com a defesa dos direitos fundamentais — analisa Campagnucci.

Alguns pontos do projeto podem impor limitações ao método eficaz de comunicação estabelecido pela base bolsonarista, como os que esbarram nos disparos em massa. Fábio Gomes, CEO da Bateiah Estratégia e Reputação, aponta que essa é uma preocupação entre os apoiadores do governo, que viraram as costas para os métodos tradicionais de comunicação, como a imprensa, e se potencializaram através do disparo em massa.

— Qualquer limitação para esse domínio é ameaçador, por isso a crítica. O modelo de comunicação eficiente e dominado pelos bolsonaristas, facilitado pelos métodos atuais, teria prejuízo. Quando a gente fala de fake news, estamos colocando dentro desse pacote a notícia falsa contra opositores, que é o clássico, mas cabe também memes com pitadas de humor sem trazer nenhuma mentira, uma piada usada para a agressão, e até os casos em que o autor é favorecido pela fake news — ressalta Gomes.

O CEO ainda destaca que esses grupos se pronunciam sobre o projeto com a intenção de se comunicar com similares, trazendo uma narrativa de conspiração e ameaça a atuação do governo.

— É uma tentativa de autodefesa. Eles usam um caminho discursivo pregando para dentro. Eles falam ‘olha o perigo que nos cerca’. Esse discurso reforça a polarização. Eles são conspiradores. Qualquer projeto que possa limitar essa atuação é conspiração, foi criado para limitar o Bolsonaro.

Francisco Brito, diretor do InternetLab, acrescenta ressaltando que não teria sentido, levando em consideração o posicionamento político da base bolsonarista em relação ao combate a fake news, o apoio ao projeto de lei.

— O projeto vem como mais um capítulo da CPMI das Fake News, do que eles acreditam ser um enfrentamento de parlamentares do Congresso ao governo. Os processos estão muito interligados, não faria sentido apoiar a proposta depois de ter sido contrário à CPMI.

Brito ressalta a importância de projetos como o em questão serem desenvolvidos em um bom espaço de tempo para debates e cita o Marco Civil da Internet e a Lei de Proteção de Dados como exemplos de sucesso nesse sentido. A partir daí, segundo Francisco, algumas figuras de esquerda ocupam um espaço de dúvida na discussão, justificando os resultados apresentados pela Arquimedes.

— O fato de o projeto trazer risco para os direitos e que a sociedade civil tem exercido um papel de denúncia, faz com que a base mais de esquerda fique mais em dúvida. De um lado, existe uma vontade de dar uma resposta às denúncias que ligam o governo à desinformação. Por outro, está semeado o receio, e talvez isso explique um pouco a inação. A gente discutir correndo e não pensar em direitos pode resultar em perseguição política.

Ele ainda ressalta que não associa o destaque no debate de Carlos Bolsonaro, Roberto Jefferson e Douglas Garcia ao inquérito das fake news, uma vez que as consequências do projeto não são claras. O grupo usaria a discussão como combustível político.

— Eu não acho que eles se veem ameaçados porque as consequências do projeto não são claras. Ninguém hoje tem a prova de que isso vai ser efetivo. O que eu acho que os move é uma narrativa política. O inquérito, o projeto e a CPMI, desde que isso apareceu, é utilizado como uma ferramenta de vitimização e de polarização de dizer que se trata de uma perseguição, que querem calar a base do presidente. isso é combustível para propaganda política

E por fim, destaca:

— Do jeito que o projeto está hoje, algumas coisas faladas por essa base são verdade. O registro da mensagem por um determinado tempo, por exemplo, é uma medida de vigilância em massa. A leitura é essa. Às vezes, pode-se movimentar fatos verdadeiros para defender uma argumentação política.

Fonte: O Globo

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