Crivella anuncia que aulas presenciais nas escolas particulares voltam a ser permitidas em duas semanas

RIO — Após reunião com representantes de escolas particulares na manhã desta segunda-feira, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, anunciou que, a partir do próximo dia 3 de agosto, as instituições privadas no município que tiverem a intenção de retornar às atividades presenciais terão autorização para voltar, de forma voluntária.

De acordo com a prefeitura, durante o encontro, representantes da Associação de Creches e Escolas Particulares (Acep) e da Associação de Escolas Particulares (Aspep-RJ) manifestaram a intenção de retomar as aulas de forma facultativa, respeitando a vontade de professores, funcionários e pais dos alunos, sob as regras definidas pela Vigilância Sanitária no mês passado e publicadas em decreto no início deste mês. O GLOBO não conseguiu contato com as associações citadas. Ainda esta semana, o retorno das aulas presenciais nas escolas públicas do município também serão debatidas, segundo Crivella.

— Hoje (nesta segunda-feira) mesmo, de manhã, tive um encontro com representantes das escolas privadas, que querem voltar de maneira voluntária no dia 3 de agosto. De maneira voluntária, seguindo todas as regras da Vigilância Sanitária. (Com) As escolas públicas, nós conversaremos esta semana e eu anunciarei o que for decidido — disse o prefeito.

O município afirmou que tem a informação da vontade de as escolas particulares retomarem as suas atividades a partir de 3 de agosto. Maiores detalhes serão dados nesta terça-feira, em coletiva de imprensa, conforme acrescentou a assessoria do prefeito.

Crivella fez o anúncio durante a entrega de 18 equipamentos no Hospital Municipal Francisco da Silva Telles, em Irajá. No evento, o prefeito do Rio também comentou sobre as obras de R$ 105 milhões no trecho entre Deodoro e Santa Cruz, na Avenida Brasil, com verba liberada pelo governo federal.

Procurado, o Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro (Sinpro Rio), que representa os profissionais da rede privada, disse que não foi convocado para a reunião. O vice-presidente do órgão, Afonso Celso Teixeira, afirmou ter sido surpreendido com a notícia dada pelo prefeito.

— Nós fomos surpreendidos com essa notícia, porque não fomos mais convocados para nenhuma reunião desde o dia 10 de julho, quando nos encontramos com a secretária e o prefeito nem esteve presente. Nos foi dito que o plano de voltar às aulas no dia 13 de julho deveria ser prorrogado para o dia 3 de agosto, e desde então nós ficamos esperando uma nova reunião com o prefeito para que decidíssemos se éramos de acordo ou não, mas não fomos mais chamados — contou.

No dia 4 deste mês, os professores da rede privada decidiram que não voltariam às aulas. Organizada pelo Sindicato dos Professores do Município do Rio, a assembleia teve a participação de cerca de 600 docentes. Mais de 90% votaram contra o retorno imediato. Na ocasião, o encontro foi marcado pois o prefeito Marcelo Crivella declarou não ver obstáculos à reabertura de escolas porque “crianças são imunes“, o que foi combatido por especialistas. No próximo sábado, Teixeira afirma que haverá nova assembleia para tratar o tema e definir se a greve presencial continua.

— No sábado nós faremos uma assembleia. Desde o início da pandemia, nós estamos em greve: dando aulas remotas, normalmente, mas em greve, pois não concordamos em ir à escola. Pode ser que, mesmo com a decisão da prefeitura, a categoria escolha por não voltar. Se ninguém vai à escola, ela abre como? — disse.

O professor também pontuou os motivos pelos quais o sindicato se posiciona contra a volta das aulas presenciais neste momento.

— Em primeiro lugar, nós não vemos nenhum fato novo (no panorama da pandemia) que faça com que possamos pensar em já retornar as aulas presenciais. Outro ponto é sobre a questão da presença facultativa: é uma excrescência. Na iniciativa privada, e todo mundo sabe disso, o que vale é a vontade do empregador, não do empregado. Se o professor alega algum problema ou diz que é contra a volta, ele vai acabar sendo demitido. Nós ficamos muito preocupados com essa situação — afirmou, e concluiu. — Temos muita preocupação também em relação aos protocolos de segurança apresentados. Será uma dificuldade muito grande de fiscalização por parte da prefeitura e é uma falácia as escolas afirmarem que estão preparadas.

A reportagem também entrou em contato com o Sindicato das Escolas Particulares do Rio (Sinepe RJ), que até a publicação não se posicionou sobre a definição divulgada por Crivella.

Fiocruz considera prematuro retorno às atividades escolares

Médicos cientistas da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz divulgaram, também nesta segunda-feira, um documento onde consideram prematura a autorização para que as instituições sejam reabertas para aulas presenciais. O levantamento leva em consideração fontes de diferentes instituições, cita o Brasil como em uma situação ainda “fora do controle”, relembra outros lugares, como Espanha, França e Holanda onde escolas precisaram ser fechadas após a reabertura, e traça um panorama onde a situação do município do Rio ainda é considerada grave. No estado, a taxa de contágio (R0) aparece em 1,29 — o ideal é estar abaixo de 0,5.

“Os dados do Brasil parecem indicar uma pandemia ainda fora do controle e, mesmo dentro do município do Rio onde os dados apresentam queda desde maio de 2020, se compararmos com outros países países, parece prematuro pensar em uma reabertura neste momento. Cabe lembrar que os dados confirmados no Brasil são baseados em gravidade porque a maior parte da testagem é feita nos casos graves, diferente de países onde há uma maior taxa de testagem”, diz trecho.

“Diante da possibilidade de possível recrudescimento de casos e óbitos no município, ainda parece prematura a abertura das escolas no atual momento da pandemia pelo SARS-CoV2. É necessário que especialistas, epidemiologistas, infectologistas, pneumologistas, pediatras e outros acompanhem e monitorem todo o processo pandêmico. Principalmente para avaliar o impacto no número de casos e mortes com a reabertura dos outros processos produtivos na cidade do Rio de Janeiro.”, também pontuam os autores.

O relatório também diz que o município do Rio de Janeiro precisa garantir que as escolas públicas e privadas apresentem seus planos específicos para abertura e a construção de diretrizes e protocolos rígidos para monitoramento e controle de casos, atenção redobrada para os alunos especiais e política de abordagem psicossocial e saúde mental.

“O retorno as aulas tem sido o maior desafio para os países que conseguiram controlar a epidemia e reduzir casos e óbitos, após a oitava semana. Alguns países, mesmo seguindo a orientação da OMS, tiveram que retornar ao fechamento após surgirem novos casos nas escolas, entre alunos, trabalhadores e parentes. Muitas creches e escolas primárias foram fechadas durante a semana de abertura, após a detecção do vírus entre as crianças. É importante reforçar a relação das escolas com o SUS local e o PSE. Outro fator importante é a necessidade de sinalizar que a abertura diferenciada entre o setor público e privado acentua a desigualdade de acesso ao ensino e sem as melhores condições epidemiológicas coloca em risco parcela de alunos e professores da rede escolar dos estados e municípios”.

Um milhão nas ruas

Os pesquisadores da Fiocruz também levantaram que a rede privada no município do Rio conta com 2.031 escolas. Ao reabrir as escolas, mesmo as particulares, os autores apontam que entrariam em circulação nas ruas da cidade cerca de um milhão de pessoas.

“Esse dado aliado a atual flexibilização em curso já definido pela prefeitura, como shoppings centers, aumentará sobremaneira a densidade da mobilidade urbana, o que poderá comprometer o transporte público na cidade, facilitando a aglomeração, agora com crianças e jovens, além dos adultos trabalhadores”, diz trecho.

“A maioria das pessoas que se contaminam, em torno de 80 %, são assintomáticas ou cursam com sintomas muito leves, em torno de 20% apresentam sintomas gripais e 5% agravam o estado de saúde, podendo necessitar de internação em leitos intermediários ou UTI. Crianças e jovens são menos propensos a quadros graves e podem ser portadores do coronavírus na cadeia de transmissão, o que coloca em risco de gravidade e morte as populações adultas, idosos e portadores de comorbidades. Mesmo crianças e jovens podem adoecer e evoluir necessitando de internação e UTI infantil”, também pontua o documento.

Fonte: Jornal Extra

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