Homem morre de Covid-19, é enterrado um mês depois, mas família só descobre após 50 dias

A família de um paciente que foi diagnosticado com Covid-19 no Hospital municipal Salgado Filho, no Méier, na Zona Norte do Rio, e que morreu há 50 dias quer saber por que houve a demora em comunicar o óbito. Somente na noite desta quarta-feira, dia 19, por acaso, a família descobriu o fato e quer saber quem liberou e enterrou o homem no dia 5 de agosto. Durante todo esse tempo, a unidade hospitalar, que é gerida pela Prefeitura do Rio, enviava boletins diários aos parentes para informar o estado de saúde do homem, que deu entrada no hospital com sintomas de Acidente Vascular Cerebral (AVC) antes de testar positivo para coronavírus. O desempregado Paulo César dos Santos Oliveira, 53 anos, estava no Salgado Filho desde o dia 25 de junho. No entanto, morreu seis dias depois.

Na manhã desta quinta-feira, após o “Bom dia Rio”, da TV Globo, denunciar o descaso da Secretaria municipal de Saúde (SMS), a direção da unidade chamou a família do desempregado para conversar. Morador do Jacaré, Paulo tinha tido um AVC e deu entrada no local no final de junho. Horas depois, segundo a família, eles foram informados que ele estava com todos os sintomas da Covid-19, e por isso ele não podia receber visitas.

No entanto, de acordo com parentes, durante todo o tempo que o homem esteve internado, a família manteve contato com a direção do local. Os familiares contam que os responsáveis pela instituição sempre afirmaram que “o senhor Paulo passa bem”.Thainara Souza dos Santos, filha de Paulo César, disse que foi ao Hospital Salgado Filho muitas vezes para levar roupa de cama limpa e pegar o lençol sujo, que levavam para casa para lavar devolver a hospital para que o pai usasse.

— Quando ele veio para cá, ele estava com um AVC. Aqui fomos informados que ele estava com suspeita da Covid-19 e fomos liberados. Desde então, o meu esposo recebeu mensagens do meu pai falando e que ele estava bem — lembra a Thainara, que completa:

— Vim aqui ainda duas vezes para trazer a roupa de cama e levei para casa as roupas sujas.

Na tarde desta quarta, familiares de Paulo César foram ao hospital para que um filho dele fosse atendido. Ao chegar na unidade, a filha disse que resolveu tentar ver o pai — que estava na sala amarela. Lá, ela descobriu que o desempregado havia morrido e que tinah sido enterrado no Cemitério Inhaúma, na Zona Norte.

— Fui lá no leito onde o meu pai estava e não vi ninguém. Uma enfermeira disse que eu poderia ir na recepção para saber onde o meu pai estava. A recepcionista me disse, então, que o nome do meu pai não constava mais no sistema. Comecei a questionar, pois fiquei muito preocupada — contou Thainara, de 25 anos.

Após um tempo, a jovem descobriu que o pai havia morrido no dia 1° de julho. Mas ninguém comunicou o fato à família.

— Quando fui ver, no caderno estava escrito que ele havia falecido no dia 1º de julho de 2020 e que só foi enterrado no dia 5 de agosto. Ou seja, mais de um mês após a morte. Não sei quem reconheceu e liberou o corpo, não sei quem enterrou o meu pai. Ele morava do lado da minha casa, e eu era a responsável por ele — destaca a filha mais velha.

Homem morava sozinho

Paulo César morava sozinho e ao lado da casa da filha. Ele não conseguia andar, já que tinha problemas na perna causados por uma diabetes. Thainara não sabe como o pai foi enterrado sem documentos.

— Como alguém iria enterrar o meu pai? Será que trocaram o corpo? Eu havia vindo deixar as coisas para ele. O endereço era da minha casa. O meu pai não tinha outra família. Tudo isso é revoltante — lembra Thainara.

Ex-mulher de Paulo, a dona de casa Janaína Ribeiro de Souza, 40, diz que ficou casada com o ex-companheiro por 20 anos. Eles tiveram sete filhos. Segundo Janaína, a filha de 25 anos era a responsável por ajudar o pai no que ele precisava.

— Ela que cuidava do pai após ele ficar muito doente da diabetes. Quando ele veio para cá, o laudo deu que ele estava com pneumonia. A minha filha depois ficou sabendo que estava com Covid-19, e, desde então, ela não conseguiu ver mais ele — contou Janaína.

— A gente que saber o que aconteceu. Mora todo mundo no mesmo local. Não tinha como os parentes enterrarem e ninguém ficar sabendo. Não tinha informação nenhuma. Ela que resolve as coisas do pai.

Hospital alega que enviou telegrama

O hospital Salgado Filho informou que enviou um telegrama para comunicar a família sobre a morte, porque não haviam telefones de contato. A filha nega que tenha recebido a carta. Ela irá fazer um Registro de Ocorrência na delegacia contra o hospital.

— A gente recebe todas as cartas em casa e ninguém mandou telegrama. É mentira. Já havia dado tempo para eles mandarem alguma carta. O telegrama não chegou, é mentira. Quem liberou e quem foi que liberou? Eu sou a responsável pelo meu pai. Daqui, eu vou registrar um boletim de ocorrência contra o hospital — diz Thainara.

Fonte: Jornal Extra

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