Volta às aulas presenciais no Rio: veja argumentos de quem é contra e quem é a favor

Fechadas na segunda quinzena do mês de março por causa da pandemia do novo coronavírus, as escolas particulares começaram a retomada das aulas presenciais no Rio na quinta-feira (1º), após autorização judicial em meio a longa batalha nos tribunais.

Apesar da liberação, muitas escolas não reabriram e o sindicato de professores anunciou greve. Na rede pública, a indefinição é ainda maior.

Jornal povo ouviu professores, donos de escolas, sindicatos, pediatras, infectologistas e pais de alunos para entender o que diz quem é a favor e quem é contra a volta às escolas.

Argumentos contrários à reabertura:

  • mesmo que com a maioria assintomática, algumas crianças podem apresentar quadros graves ao serem contaminadas pela Covid-19;
  • medo de que as crianças transmitam o vírus para idosos ou para pessoas com comorbidades dentro de casa ou na família;
  • reabrir as escolas aumentaria a circulação das pessoas diariamente nas ruas e nos transportes públicos;
  • escolas não estão preparadas para cumprir os protocolos de segurança solicitados para o retorno;
  • falta pouco para o fim do ano e não vale a pena reabrir agora;
  • com o retorno das escolas, outras doenças voltariam a circular entre as crianças, o que ocasionaria consequentemente o aumento nas internações nas emergências pediátricas;
  • ainda não existe vacina.

Argumentos a favor da reabertura:

  • ensino à distância está fazendo com que muitas crianças percam interesse pelos estudos pela dificuldade de concentração;
  • muitos alunos não têm acesso a internet ou aparelhos como computador e telefone celular para acompanhar a aula online;
  • muitos pais não têm com quem deixar os filhos pois já voltaram ao trabalho;
  • muitos estabelecimentos e serviços já estão funcionando, menos as escolas;
  • crianças frequentam festas, hotéis, playground, restaurantes, praias, viagens, mas não podem ir para aula;
  • aumento nos casos de ansiedade, agressividade, depressão e até de suicídio entre crianças e adolescentes;
  • além de promover o conhecimento, a escola também é grande meio para o desenvolvimento de sociabilidade e afetividade;
  • medidas de higiene e testagem com frequência permitiriam uma reabertura mais segura.

Jornal Povo ouviu diversas pessoas que estão diretamente ligadas à discussão sobre o retorno das aulas nas escolas do Rio.

Danos psicológicos

A presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade de Pediatria do RJ (Soperj), Tânia Petraglia, argumenta que a educação deveria ser tratada como prioridade e que deveria ser um dos primeiros setores a ser flexibilizado. Ela teme que toda essa demora na reabertura das escolas cause danos irreparáveis a crianças e adolescentes.

“A família e a escola são os dois pilares mais importantes na formação de uma criança. Privar uma criança da escola é não só prejudicar o seu aprendizado formal, mas pode causar danos colaterais e psicológicos que só vamos perceber mais tarde. Temos aumento nos casos de ansiedade, agressividade, depressão e já há casos de suicídio”, disse Tânia Petraglia.

De acordo com a presidente do Soperj, estudos mostram que crianças e adolescentes têm baixa representatividade na doença ou de morte por Covid-19, e que, apesar de serem infectadas pelos adultos, têm uma carga de transmissão do vírus muito pequena e desenvolvem formas muito mais brandas da doença.

“Criança gosta de criança. A interação é muito importante e a escola é o ambiente onde ela se dá. Tomando-se as medidas de precaução, como uso de máscara, água, sabão e água sanitária, e planejamento, as escolas já deveriam ter voltado há muito tempo, muito antes de shoppings, salões de festas, parques, ambientes de difícil controle. Muitos pais, que tiveram de voltar a trabalhar, deixavam os filhos em espaços de recreação. As alternativas à escola são muito mais perigosas. Nenhum país do mundo adotou esse lockdown tão extenso na educação. Isso vai trazer danos irreparáveis no futuro dessas crianças e do país”, acrescentou Tânia.

Ruas e transportes mais cheios

Fernando Paz, que trabalha como agente de educação infantil e é diretor do sindicato que representa os profissionais de educação das unidades municipais e estaduais do RJ (Sepe RJ), alega que enquanto houver pandemia, não há condições de reabrir as unidades de ensino, principalmente as escolas públicas .

“Não há material de higiene, sabão e em alguns casos até falta água. Até quando tem surto de piolho não tem como garantir, em salas de aulas cheias, pequenas e com muitas crianças. É complicado querer dar um ar de normalidade no meio da pandemia”, comentou Fernando.

Ele acrescentou que com a reabertura das escolas, mais pessoas estarão em circulação diariamente: “Uma volta às aulas coloca mais pessoas circulando nas ruas e no transporte público. A pandemia nos mostrou como é grave a questão social, aprofundou problemas sociais e deixou claro o posicionamento daqueles que governam.”

Pais de alunos em lados opostos

A enfermeira Samanta Alves tem dois filhos, um de 5 anos e um de 3, que ainda estão sem aulas presenciais. Na linha de frente no combate à Covid-19, ela precisa da ajuda e revezamento de familiares para cuidar das crianças enquanto trabalha. Samanta argumenta que não faz sentido os estabelecimentos estarem funcionando e as escolas fechadas.

“Não existe mais isolamento social, a maioria das pessoas está nas ruas. Os shoppings, casas de festas, restaurantes, lojas, parquinhos, hotéis, praias e plays de prédios estão cheios, alguns locais até lotados. Os voos estão cheios de idosos misturados com crianças, por exemplo. Então não faz o menor sentido tudo abrir e as escolas ficarem fechadas. Ninguém mais vai ficar em casa trancado esperando a vacina chegar, essa é a questão”, apontou Samanta.

Ela ainda ressaltou que seus filhos sentem falta dos amiguinhos e que, constantemente, perguntam sobre o colégio.

“As crianças e até os adolescentes sentem falta da escola, da rotina. Além disso, o conteúdo online não é a mesma coisa que presencial, as crianças ficam dispersas, não se concentram e muitas vezes não têm ninguém ao lado pra orientar. A escola faz diferença para parte emocional das crianças. E, claro, eu me sinto sobrecarregada com elas em casa e também não é sempre que tenho com quem deixá-las”.

Se Samara quer que as aulas voltem, Flávia Medeiros, que é dona de casa, acha que não é o momento de as escolas reabrirem. Flávia é mãe de uma menina de 7 anos, que também está tendo apenas aula online.

“Minha filha tem contato com os avós diariamente, isso poderia colocá-los em risco. Fora que nas escolas e creches as crianças pegam diversas outras doenças, que poderia comprometer a saúde nesse momento de pandemia e, ainda por cima, lotar as emergências pediátricas sem necessidade”, justificou.

Samara defendeu que as aulas só devem voltar após a vacina contra a Covid-19. “Todos nós corremos riscos com essa doença. Mesmo que assintomáticas, crianças podem pegar e transmitir o vírus, além disso, sabemos de casos de crianças que morreram e ficaram em estado grave com coronavírus.”

Retorno no fim do ano

A professora Mariana Trota de uma escola no Cachambi, Zona Norte, é contra o retorno das aulas esse ano. Ela explica que faltam apenas dois meses para o término do ano letivo e que não daria para recuperar o conteúdo que foi perdido em menos de 10 semanas.

“Não acho que seja risco para professores ou alunos, porque tudo já abriu. No meu caso, que sou professora, acho que voltar agora não mudaria em nada, uma vez que as aulas aconteceriam em forma de rodízio e ainda continuariam sendo gravadas para aqueles que assistirão em casa. Em dois meses não dá pra recuperar conteúdo perdido”, sinalizou Mariana.

Já a professora Nathália Azevedo, de uma escola em Pilares, acredita que o retorno possa beneficiar o rendimento dos alunos nos estudos

“Estamos todos chateados com tudo isso, professores, donos de colégios. Estamos investindo em conteúdo online, mas não é a mesma coisa, né? As crianças não rendem tanto quanto na escola. Muitas não têm celular ou computador, outras não têm acesso à internet. O rendimento em aula é outro. Sabemos de muitos alunos que já pararam de estudar esse ano, perderam o interesse diante dessa situação toda”, avaliou.

Recentemente, uma pesquisa da Defensoria Pública do Rio de Janeiro apontou que mais da metade (54%) dos alunos de todo o estado enfrentam problemas de acesso à internet; desses, 10% não dispõem de nenhum tipo de conexão.

Para professora, retorno das aulas presenciais pode melhorar rendimento dos alunos (foto de arquivo) — Foto: Fernanda Zauli/G1
Para professora, retorno das aulas presenciais pode melhorar rendimento dos alunos (foto de arquivo) — Foto: Fernanda Zauli

Infectologista pediátrica lista motivos para o retorno

A infectologista pediátrica Mariana Cypreste apontou sete motivos pelos quais ela acha que retorno das aulas deve acontecer:

  1. Crianças na sua grande maioria quando infectadas têm poucos ou nenhum sintoma, então não transmitem o vírus de forma intensa;
  2. Interrupção escolar prolongada causa atraso na cognição e no consequente aprendizado, o que é diretamente proporcional ao grau de pobreza das crianças;
  3. De acordo com o perfil epidemiológico do RJ já temos condição de retornar ( curva descendente de casos e óbitos), com leves oscilações;
  4. Quanto mais tempo tivermos adolescentes fora da escola maiores a chances de evasão escolar;
  5. Países que reabriram suas escolas não tiveram mudanças relevantes no número de casos e óbitos (salvo situações pontuais);
  6. Coronavírus ainda será um tema de debate por muitos e muitos anos;
  7. Os pais estão esperando a vacina? Vale lembrar que, por enquanto, vacinas estão sendo testadas em adultos acima de 18 anos, e não em crianças.

Reabertura com testagem semanal

Para alguns especialistas, medidas de higiene e testagem frequente permitiriam uma reabertura mais segura. Patologista e diretor médico de um laboratório, Helio Magarinos Torres Filho disse que testar semanalmente todas as crianças e professores com o PCR pode ajudar na fase de retorno às salas de aula.

“Sabemos que cerca de 90% das crianças que positivam para Covid são assintomáticas. Mas vale ressaltar também que a sensibilidade nestes casos não é maior do que 50% e que os resultados podem estar sujeitos a resultados falso negativos. Por isso, a testagem não substitui as regras de distanciamento social e de segurança. Não podemos testar e deixar de ter cuidados básicos. Mas, se puder, é melhor testar do que não testar”, comentou Helio.

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