Gianni Infantino, exclusivo: “Partilho o desconforto de muitos pela sobreposição de jogos de clubes de elite com os da Seleção”

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, declarou que sente “desconforto” com a sobreposição de partidas da seleção brasileira e de clubes de elite do Brasil, e que os responsáveis “têm a obrigação de encontrar saídas para esse tipo de situação”. O dirigente fez a ressalva de que não pretende impor sua opinião “a quem toma decisões no Brasil”.

Na última semana os clubes brasileiros entraram em campo sem alguns de seus principais jogadores – como Pedro, Everton Ribeiro, Soteldo, Gustavo Gómez, Viña, Kannemann e outros, cedidos para suas seleções, que disputam as Eliminatóras para a Copa do Mundo – porque os campeonatos organizados pela CBF não são interrompidos durante as Datas Fifa, como acontece na Europa.

Nesta entrevista, concedida por e-mail para tratar exclusivamente do calendário do futebol mundial, Infantino defende o novo Mundial de Clubes, afirma que é preciso ter “menos e mais significativas partidas” e diz que as decisões serão tomadas pensando “no descanso e na recuperação dos jogadores”. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Gianni Infantino, presidente da Fifa — Foto: Reuters
Gianni Infantino, presidente da Fifa — Foto: Reuters

Já estão em curso as discussões sobre como será o calendário mundial do futebol após 2024. Se depender da Fifa, o que vai mudar e o que vai ser preservado?

– Eu disse isso no passado e vou dizer de novo. Acho que devemos procurar maneiras de ter menos partidas, mas mais significativas. Encontrar uma fórmula perfeita será extremamente desafiador, mas acho que a comunidade do futebol deveria pelo menos discutir aberta e francamente para ver se podemos chegar a soluções novas e melhores. Parece haver um consenso de que há muitas partidas por temporada em muitos países.

É possível ter menos (e mais longas) janelas internacionais? Ou uma Liga das Nações de seleções masculinas?

– Em relação às duas ideias que você mencionou, talvez valha a pena estudá-las, assim como tantas outras que ouvi aqui e ali. Como seriam as coisas se tivéssemos períodos diferentes ao longo da temporada? Um período para as seleções, outro para competições nacionais, outro para competições continentais e ainda outro para competições mundiais? Pode fazer sentido que o formato com grupos reduza consideravelmente o número de viagens, com benefício para jogadores e o meio ambiente. Por outro lado, torcedores adoram jogos de mata-mata, e muitas pessoas defendem que deveria haver mais jogos assim. Isso seria positivo? Podemos encontrar uma maneira para que isso aconteça? Na minha opinião, qualquer discussão sobre isso teria que ser baseada no respeito aos períodos de descanso e recuperação dos jogadores.

O senhor avalia ser melhor um calendário mundial a ser seguido por todos? Ou é melhor como acontece hoje, em que as particularidades de cada continente ou país são respeitadas?

– Existem muitas vozes pedindo a harmonização do calendário em todo o mundo. Isso teria várias vantagens, mas as coisas são do jeito que são por um motivo. Talvez seja hora de rever isso e ver se esses motivos se aplicam aos tempos em que vivemos, em termos de meio ambiente, de um mundo cada vez mais globalizado etc.

A pandemia adiou a primeira edição do novo Mundial de Clubes, que seria na China em 2021. Também parece haver outros focos de resistência ao torneio. O senhor consegue dizer com convicção que este torneio vai decolar? É possível prever quando?

– Ainda não temos a data exata porque a pandemia se abateu sobre nós e a Fifa está obviamente sensível à situação em que algumas confederações se viram, obrigadas a adiar torneios – notoriamente a Uefa com a Euro e a Conmebol com a Copa América. Ajudamos estas confederações concedendo a elas um janela no calendário, em junho de 2021, que estava reservada para a Fifa. Sabemos que elas [as confederações] vão nos apoiar quando encontrarmos um espaço adequado para o novo Mundial de Clubes. Tenho certeza que esta nova competição, que aliás substitui duas [a Copa das Confederações e o atual Mundial de Clubes, portanto não será um fardo adicional para calendário e jogadores] será um sucesso.

Um único torneio entre clubes a cada quatro anos é suficiente para reduzir a distância entre os clubes de elite da Europa e os clubes de outros continentes? É o caso de tentar uma periodicidade mais frequente?

– Eu acredito que vai contribuir, sim. Pelo menos é um passo na direção certa. Como já disse algumas vezes, minha visão é que os clubes de todo o mundo possam sonhar em um dia se tornarem campeões mundiais. Esta competição certamente vai abrir chances para mais clubes em diferentes partes do mundo. Hoje essa é uma possibilidade tão pequena que pode levar alguns a desistir, a pensar que não vale a pena investir nela.

No Brasil, os campeonatos de clubes não são interrompidos durante as janelas para jogos entre seleções. Em 2021, se um jogador for convocado para as Eliminatórias e a Copa América, vai perder 18 das 38 rodadas do Campeonato Brasileiro. Como o senhor avalia essa situação? Qual seria a solução para este problema?

– Como Presidente da FIFA não devo nem posso sobrepor a minha opinião a quem toma decisões no Brasil, mas admito que partilho o desconforto de muitos pela sobreposição de jogos de clubes de elite com os jogos da Seleção Brasileira. Sei que não é fácil encontrar pontos de equilíbrio entre todas as partes, mas os interesses do futebol devem estar acima dos interesses individuais ou corporativos, e todos os responsáveis têm a obrigação de encontrar saídas para esse tipo de situação.

Fonte: Ge

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