Filme propõe discussão sobre ‘desaparecimentos forçados’ na Baixada Fluminense

“Ir na delegacia, e a primeira coisa que o Estado perguntar é “era bandido?” é o que mais dói”. Esse é o relato da mãe de um desaparecido que procurou o filho por 17 dias até encontrar o corpo desovado em uma região da Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio. O depoimento faz parte do documentário “Nossos corpos são nossos livros”, produzido pela Iniciativa de Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR), instituição que atua na Baixada Fluminense.  

Coordenadora executiva do IDMJR, Giselle Florentino assina o roteiro junto com Fransérgio Goulart. Segundo ela, a proposta do filme é dar visibilidade ao tema dos “desaparecimentos forçados”, uma categoria ainda em debate. 

— O desaparecimento forçado tem características de homicídio e de desaparecimento, só que não é um desaparecimento tradicional. É o sequestro e assassinato de uma pessoa. Ela é retirada forçadamente do seu território, e seu corpo nunca é encontrado. Então sua família não tem o corpo nem para fazer os ritos funerários, e fica sempre essa dúvida de não saber se a pessoa está viva ou morta — diz. 

O documentário é o resultado de um processo de pesquisa de dois anos a partir de depoimentos de mães e familiares de vítimas e de análises em dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). Segundo ela, muitos dos casos não chegam sequer a serem registrados. 

— A gente não está falando de subnotificação (nos dados), porque não há registro do desaparecimento dessa pessoa, por isso ela não é procurada e nem encontrada. A Baixada é a maior região hoje onde desaparecem pessoas no Rio de Janeiro — afirma. 

Giselle Florentino vê relação entre os desaparecimentos forçados de hoje e o processo de escravidão: 

— A gente entende que desaparecimentos forçados não é limitado ao período da ditadura militar, mas que acompanha toda a história mundial do povo preto, especialmente durante o sequestro de corpos negros do continente africano. Parte desde o processo de escravidão até o atual cenário de milícia em que a gente vive.  

A proposta, com o filme, é levar a discussão até mesmo ao campo jurídico. 

— A partir da luta de familiares, a gente acha que é importante dar visibilidade a uma categoria que não tem arcabouço jurídico no Brasil — diz a roteirista. 

Para Janaína Oliveira, que assina a direção do documentário, o objetivo é também auxiliar e orientar as famílias das vítimas. 

— A intenção é tornar essa nomenclatura, “desaparecimentos forçados”, uma nomenclatura comum, que a gente possa usá-la judicialmente para esse tipo de desaparecimento que comumente ocorre nas periferias, sobretudo na Baixada Fluminense, e quando se trata de pessoas pretas e periféricas. Então fazer um filme como essa é dar foco a isso, especialmente para as famílias que têm esses casos, sobre como elas devem agir, onde procurar ajuda. E para que as autoridades entendam o que é um desparecimento forçado e saiba como agir, que nunca duvide das famílias. O filme vem falando disso, da importância de dar nome a essa violência .

O curta-metragem tem entrevistas com familiares de vítimas e especialistas, e teve pré-estreia no último sábado, dia 2.

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