Insegurança Alimentar:”Pesquisa mostra que 2,8 milhões de pessoas passam fome no estado do Rio”

Dados do Rio de Janeiro foram apresentados em Encontro Nacional Contra a Fome nesta quinta-feira

Cerca de 2,8 milhões de pessoas passam fome hoje no estado do Rio de Janeiro. Isso representa 15,9% da população fluminense. Os dados foram divulgados hoje no Encontro Nacional Contra a Fome, organizado pela Ação da Cidadania, e fazem parte do 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, da Rede PENSSAN.

De acordo com a pesquisa, que depois de fazer um levantamento nacional se debruçou sobre a situação da fome nos estados, de 2018 para 2022, houve um aumento de 400% no número de pessoas sem ter o que comer no estado do Rio. Quando ampliamos o olhar para as pessoas em situação de insegurança alimentar nos três níveis (leve, moderado e grave), ou seja, pessoas que estão vivendo com algum tipo de restrição no acesso à alimentação, o percentual da população do Rio enquadrada nesse grupo atualmente chega a 60%, contra 32,2% de quatro anos atrás.

O diretor executivo da Ação da Cidadania, Rodrigo “Kiko” Afonso, afirmou que os números do estado são assustadores, mas importantes para o governo e a sociedade pensarem em dar solução ao problema. Rodrigo reforçou que a fome tem “CEP, gênero e cor” e que os dados do estado retratam a desigualdade e os preconceitos estruturais de todo o país.

— A mulher negra é a que mais sofre com a fome hoje. Você percebe claramente nos dados. É inequívoco como o racismo estrutural, o preconceito contra a mulher, como as desigualdades brasileiras tem como consequência a fome — explicou o diretor.

Enquanto 50% dos homens responsáveis por “colocar comida na mesa” estão em situação de segurança alimentar, 38,58% das mulheres que lutam pelo sustento de suas famílias passam fome. Essa diferença também é percebida quando é feito um recorte por cor: 37,61% dos chefes de família pretos e pardos vivem em situação de insegurança alimentar grave no Rio de Janeiro. Por outro lado, 55,63% dos chefes de família que se identificaram como brancos não sofrem com nenhum tipo de restrição.

Outro recorte da pesquisa que impressiona é o ocupacional. No estado, quase 70% das pessoas que estão desempregadas sofrem com insegurança alimentar moderada ou passam fome.  Quando tratamos de insegurança alimentar, o nível moderado significa que um pessoa da família precisa abrir mão de comer, para que a outra se alimente, ou que a pessoa deixa de fazer pelo menos uma das principais refeições diárias. Além disso, o endividamento das famílias também é diretamente proporcional à falta de comida na mesa.

Sobre a escolaridade, os números reforçam como ela influencia e é influenciada pela fome. Se por um lado 37,5% das pessoas que não estudaram ou que estudaram até 4 anos praticamente não tem o que comer, 74% das pessoas que estudaram mais de oito anos vivem em situação de segurança alimentar. O diretor do Ação Cidadania explicou durante a apresentação, que a fome é causa e consequência da baixa escolaridade, já que a criança que não tem o que comer em casa, precisa começar a trabalhar cedo e acaba não indo para a escola.

— A gente quis trazer esses dados do Rio de Janeiro para mostrar que não existe aquela coisa que se tinha na cabeça de que fome é em Roraima, fome é no Rio Grande do Norte. Fome é no Rio de Janeiro. A antiga capital do Brasil. No Centro do Sudeste, onde se produz riqueza. Não é possível que as pessoas ainda achem que a fome é uma questão distante, ela está do nosso lado, está na realidade do nosso dia-a-dia — enfatizou Rodrigo.

Como foi feita a pesquisa?

Os dados da pesquisa divulgada nesta quinta-feira foram coletadas entre novembro de 2021 e abril de 2022, a partir da realização de entrevistas em domicílios, em áreas urbanas e rurais do estado do Rio. A Segurança Alimentar e a Insegurança Alimentar foram medidas, mais uma vez, pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia), que também é utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A pesquisa foi realizada por pesquisadores, professores, estudantes e profissionais, e teve execução em campo do Instituto Vox Populi. A Ação da Cidadania, a ActionAid, a Fundação Friedrich Ebert Brasil, o Ibirapitanga, a Oxfam Brasil e o Sesc São Paulo são organizações apoiadoras e parceiras dessa iniciativa.


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