Jornal Povo

As previsões de enchentes no Sul que o governo Dilma ignorou e o histórico de alertas negligenciados da ciência

Militar sobrevoa de helicóptero as ruas alagadas de Porto Alegre
Militar sobrevoa de helicóptero as ruas alagadas de Porto Alegre — Foto: Carlos Fabal/AFP

Um time de renomados cientistas brasileiros foi reunido em um programa do governo federal com o objetivo de prever os impactos das mudanças climáticas no país. Os pesquisadores envolvidos na série de estudos “Brasil 2040” passaram dois anos, entre 2013 e 2015, colhendo e analisando dados para antecipar cenários e propor ações no sentido de ajudar o país a se preparar para a nova realidade.

O trabalho, encomendado pela extinta Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República, na época da gestão Dilma Rousseff (PT), gerou um conjunto de relatórios alertando para problemas que se tornariam recorrentes até o ano de 2040, como os prolongados períodos de seca no Norte do país. Para a Região Sul, o grupo previu que haveria uma maior incidência de chuvas extremas, como os temporais que causaram as enchentes trágicas no estado gaúcho.

Em 2015, porém, quando a equipe ainda elaborava medidas que poderiam ser tomadas para amenizar o impacto desses cenários, o projeto foi interrompido pelo próprio governo, em meio a uma troca no comando da SAE. Assim, a série de previsões não levou à formatação de políticas públicas baseadas em suas conclusões, o que era o objetivo principal de todo o programa, que custou R$ 3,5 milhões.

O cancelamento abrupto do “Brasil 2040” é mais um exemplo de alerta da ciência ignorado pelo poder público ao longo da história recente. Pesquisadores avisam há tempos sobre o que pode ocorrer com o planeta no caso de um aumento relevante da temperatura global. Para se ter uma ideia, em 1856, a cientista americana Eunice Foote concluiu que certos gases se aquecem quando expostos ao Sol e que a elevação de dióxido de carbono na atmosfera poderia alterar a temperatura do planeta.

Eunice Foote: Primeira a associar dióxido de carbono a aquecimento atmosférico — Foto: Reprodução
Eunice Foote: Primeira a associar dióxido de carbono a aquecimento atmosférico — Foto: Reprodução

Numa época em que mulheres enfrentavam ainda mais barreiras na ciência, a sociedade no século XIX não deu bola par os achados da pesquisadora. Três anos depois, o irlandês John Tyndall publicou estudos sobre o fenômeno que viria a ser chamado de efeito estufa e levou o crédito pela descoberta. Mesmo assim, em meio ao impulso da Revolução Industrial, a Humanidade com fome de produção e consumo nem parou pra pensar que poderia estar mesmo na direção de um verdadeiro caos climático.